O Vento de Agosto

A noite caiu e eu fiquei aqui, como sempre. Olhando pro nada, pensando em tudo. Tentando entender o que se passa aqui dentro, mas é praticamente impossível. Não sei explicar, como definir, não sei me decifrar. O que eu deveria esperar dos outros então? Ninguém perderia seu precioso tempo tentando me entender. Sou complicada e desnecessária demais. Ninguém se importa, e nem deveria. É que tem tanta gente em casa, mas ninguém comigo, entende? E a única pessoa que eu achei que estaria aqui era você, mas pelo visto me enganei (mais uma vez). Você era o que me restava de uma vida comum e fria, sem nada pra me entreter, sem ninguém pra me acalmar, só você. Sem nenhuma pessoa pra segurar minha mão quando eu desabar. Porque tem tantas estrelas no céu, mas nenhuma parece brilhar pra mim.

E quando a vida não tem mais aquele brilho que costumava ter, os dias não são tão ensolarados assim, os desejos morreram. Os sonhos ficaram na estrada, os demônios venceram e o amor ficou pra trás. Nada restou, nem ao menos a vontade de tentar novamente. Porque o medo de se decepcionar é maior que qualquer vontade de dar certo. Porque daria certo pra mim? Nunca deu. Os dias perderam a cor, e aos poucos a vida foi se apagando. Cada dia mais. Só queria poder viver como antes, quando eu não tinha nada a perder e quando eu podia esperar mais das pessoas. Eu podia exigir, sem medo. Agora as semanas passam e eu não estou bem. Eu só queria que você tivesse sido honesto comigo, porque eu realmente estou farta de mentiras e promessas falsas. Eu só queria sumir por uns tempos, quem sabe, se eu tivesse sorte. Me encontrar por aí, numa outra cidade qualquer.

Percebo que as horas estão se passando. Já passa das 4 e eu ainda não consegui nos decifrar. Porque você me magoa com palavras tão fortes? Não sei onde você as encontra. Mas tenho certeza que você veio de um universo paralelo, que ao invés de acariciar você usa garras. Suas palavras como flechas, você encontra a melhor maneira de ferir. Como se você já não fizesse isso o bastante. Talvez você tenha se machucado demais e você esteja acostumado a competir com as pessoas, a querer ser o melhor em tudo. Cheio de não tentar entender e de não confiar nem na sua própria sombra. Mas eu não entendo. Porque você canta sobre um sentimento que não significa nada pra você? Porque fala tanto de amor se prova o contrário? E porque você sempre volta? É como se eu fosse a estaca zero,  o ponto inicial, a base. Mas as coisas entre nós não parecem se alinhar de uma forma real, e eu não sei como chegamos até aqui. Palavras nunca conseguirão mostrar a pessoa que eu conheci. A pessoa que você é pra mim. A pessoa que você costumava ser.

Me lembro daquele dia em que eu subi as escadas em direção a você. Eu sentia um vazio enorme no meu peito porque eu sabia que eu me sentiria mal. Eu sabia que você não iria preenchê-lo. Eu sabia que nada mudaria, que as coisas não viriam a ser como antes. Tudo parecia estar perdido. A magia do inverno, os dias de chuva no campo e as promessas feitas. Porque você tinha deixado de se importar com tudo aquilo que à um tempo atrás significava tanto pra nós. E Gramado nunca pareceu tão bela do que quando prometemos visitá-la um dia, juntos. Ninguém descobriria. Uma viagem só nós dois, planejávamos enquanto ríamos e dançávamos na grama. Nós prometemos e agora isso parece tão distante. Mas a verdade é que, nos últimos tempos que estávamos juntos era como se eu estivesse sozinha. Na verdade nunca me senti tão sozinha antes. Você não estava comigo, você só dizia estar. E agora parece difícil dar certo. Não que tenhamos medo, mas tudo isso soa tão complicado. Eu precisava de alguém a quem eu pudesse recorrer. E esse alguém não era você. Porque você estava comigo, mas não ao meu lado, e isso estava me destruindo.

É madrugada e eu posso sentir as correntes do vento frio de agosto vindo por aí. O cheiro doce da chuva. Não sou supersticiosa, nem acredito no que dizem sobre esse mês, o famoso "mês do desgosto". Deixei de acreditar nessas coisas a muito tempo, até porque é o mês de aniversário do homem que eu mais amo nesse mundo, o meu pai. Assim como também deixei de acreditar naquela história de "mês que vem tudo se renova e a gente pode começar de novo." Acho que recomeços exigem muito mais do que uma troca de datas, exige uma vontade enorme, exige mais força. Exige desejo de virar o jogo. O que eu e você, o que nós, não temos mais. Seria o nosso fim? Olhei nos seus olhos, sem força para falar uma palavra sequer, me escondendo nos meus próprios temores. Mas eu cheguei a dizer, mesmo que com pouca certeza, que eu queria que as coisas voltassem a ser o que eram, só não sabia se isso era possível.

Mas acho que a melhor forma de nos declarar pra alguém é não dizendo nada. A melhor maneira para fazermos alguém lembrar de nos valorizar mais, é deixando de valorizá-la tanto. E a única maneira de fazer alguém lembrar de nós é esquecendo dessa pessoa. Porque infelizmente na vida a gente tem que aprender, aprender a viver sem depender de ninguém. Porque as pessoas sempre deixam de preservar aquilo que elas já possuem em suas mãos. Jogo as lembranças de lado junto com as roupas sujas e me deito no escuro. Meus pés estão congelando. Todos estão dormindo. E eu aqui, petrificada. A pensar em nós, no que é e no que poderia ser. E então peguei no sono. Sonhei que éramos estrelas e voávamos pra longe daqui, onde ninguém podia nos alcançar. Mas não conta pra ninguém. Abri a janela para fumar meu cigarro e vi que a noite que se transformou em dia. E as nuvens estavam carregadas, assim como o meu coração. Um céu branco e sem cor, assim como o que nós tínhamos nos transformado. Mas hoje já é domingo e minha preguiça de viver, não me impede te ter que acordar. Porque a vida chama, e a gente tem que ir.

AGR

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