Personalidade
Houve um tempo em que minhas únicas preocupações era estar de acordo com o que eu acreditava ser o mais importante. E de todas as formas, eu tentei me encaixar nesse padrão. Por mais que intimamente eu soubesse que aquilo não era eu. Inconscientemente eu sabia que eu jamais seria aquilo que fingia ser. Por isso em algum momento, bem cedo - diga-se de passagem - eu me perdi. Eu não me aceitei como eu era. E acabei me transformando numa espécie de boneca, que vivia num mundo externo tentando de todas as formas interpretar aquele papel. Durante muitos anos, eu tentei, sem sucesso, me igualar a pessoas e coisas que eu não me identificava nem um pouco. Afinal, era o meio que eu estava inserida, por escolha própria.
Demorou bastante, mas finalmente caiu a ficha de que não era aquela que eu queria ser. Eu não sabia quem eu queria ser - ate hoje não descobri - mas com certeza não era aquele fantoche de pessoas fúteis e preocupadas apenas com aparência e superficialidades. Aquele não era meu lugar e eu me sentia cada vez mais uma farsa.
Por acasos da vida, eu acabei me encontrando em novos ambientes, novas pessoas, onde eu podia ser eu mesma e era aceita dessa forma. Eu podia me mostrar como eu era, uma criança que nunca foi ligada a esportes, vestidos de festa, unhas feitas e cabelos longos e loiros para parecer com as personagens de filme que eu tanto "admiirava". Eu podia sair do padrão. Que eu tentei me encaixar durante toda minha vida social. Pois em casa, eu sempre fui uma criança que brincava de bola, carrinho e sempre perdia a unha do dedão nas minhas travessuras. Que caia de bicicleta, me arranhava toda, mas não tinha medo e tentava de nov, com as pernas raladas . Essa era eu. Minha essência. Que foi se perdendo ao longo dos anos.
Quando comecei a conhecer pessoas novas, isso foi mudando aos poucos dentro de mim. Um mundo de possibilidades. De personalidades diferentes e de pessoas que se divertiam com o simples. Que não estavam preocupadas com a última moda ou o celular do ano. Eu não precisava fingir com elas. Eu era eu mesmo.
O problema é que por ter passado tanto tempo tentando omitir quem eu era e minha verdadeira essência, muitas vezes eu me sentia uma impostura. E me via, vez ou outra atuando naquele papel novamente, quando me encontrava com pessoas do passado. Apesar de evitá-las ao máximo. Ou me sentindo inferior por estar diferente. Como se minha máscara tivesse finalmente caído.
E eu ainda me sinto assim. Eu passei tanto tempo da minha vida tentando me adequar a pessoas e lugares que eu estava inserida que eu não sabia mais quem era meu eu verdadeiro. E até hoje não sei. Me afastei de pessoas, de amizades, de grupos, pois sozinha eu podia ao menos tentar descobrir quem eu sou, sem precisar fingir.
Mas sempre que me permitia sair da zona de conforto e ir a lugares ao qual era convidada me via imitando o comportamento das pessoas presentes. Como se for eu mesma, não fosse suficiente. Eu me adequada ao lugar, mas no fundo continuava a me sentir inadequada. Porque aquela não era eu.
E até hoje eu não sei quem sou. Não fui capaz de formar uma personalidade concreta. Opiniões, valores, focos. Fui sempre refém do sentimento de agradar a platéia. Em contrapartida de desagradar as pessoas que eu julgava serem responsáveis por isso. Pela minha falta de formação da minha personalidade. Pela falta de direcionamento, pelos falta de conselhos, pelo abandono emocional e falta de investimento na minha autoestima. Me fazendo até hoje, duvidar de mim mesmo e de minhas capacidades.
É como se a minha vida não fosse minha. Como se eu fosse capitã de um navio que eu não sei comandar. Pilota de um avião aue eu não sei pilotar. Incapaz de pegar meus próprios remos e é colocar o barco pra frente, com medo de afundar.
Me sinto num corpo que não é meu, numa vida que não é minha. Num lugar ao qual eu não pertenço ou nunca pertenci. O mundo parece cada vez mais impossível de enfrentar. Algo sem sentido pra quem não vê sentido na maioria das coisas que as pessoas acham importantes. Tudo se perdeu junto comigo. E eu não sei o caminho de volta. Pra começar de novo. Me faltam forças pras coisas mais triviais.
Tento me encontrar com aquela criança que não tinha medo de cair, se machucar. Em mim só sobrou a criança assustada que não sabe do que exatamente tem medo. E que sabe, na verdade. Medo do abandono. Medo de não ser amada do jeito que sou. Pois isso na maioria das vezes afasta as pessoas. E eu me vejo só novamente. Mesmo que em meio às pessoas que me uma dia me conheceram, mas não me vreconhecem maisl. Porque aquela criança alegre e corajosa deu lugar a uma mulher triste, acomodada e covarde.
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